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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Diferenças entre Militontos e Militantes Pró-Dilma.



O militonto recebe as decisões da presidente da República e não admite qualquer crítica. Quem ousar fazê-lo, é aliado objetivo da direita.

O militante não vacila em apoiar o governo e defender a presidente, especialmente diante da escalada reacionária. Mas não abdica do direito e do dever de pensar com a própria cabeça, criticando o que lhe parece errado na estratégia adotada e concebendo essa atitude como indispensável na ação política.

O militonto tudo explica e justifica através de um pacote fechado e imutável: a correlação de forças no parlamento. Serve como uma espécie de álibi para defender o governo de qualquer crítica por adotar políticas conciliatórias, mesmo as que podem ser um tiro no pé.

O militante encara com seriedade a tal correlação de forças, mas com o objetivo de alterá-la a favor da esquerda. Sabe que negociações e composições são inevitáveis, necessárias, mas deseja forçá-las ao limite.

O militonto ficou acostumado a pensar correlação de forças apenas ou principalmente como uma questão institucional, parlamentar. A mobilização social e a luta de massas não entram de verdade em seu cálculos como hipótese para pressionar as instituições desde seu exterior.

O militante não descuida da governabilidade institucional. Mas aprendeu, nesses doze anos e várias crises, que também é imprescindível a construção de governabilidade social. Sabe, a propósito, que as maiorias parlamentares de orientação progressista somente foram formadas, na história do Brasil, quando o povo organizado e mobilizado obrigou o Parlamento a dançar sua música.

O militonto costuma achar que divide a esquerda quem entra em desacordo com ações do governo. Não admite que, às vezes, pode ser o governo quem divida a esquerda com suas ações.

O militante quer a unidade da esquerda e das forças progressistas. Mas acha que a pedra angular desse processo vai além de apoiar ou não o governo: depende de um programa unificador e de uma estratégia de coalizão do campo popular.

O militonto acha que o passado fornece crédito infinito, no presente e no futuro. Por tudo o que foi feito, e definitivamente não é pouco, o governo deveria ser defendido incondicionalmente e qualquer crítica seria descabida por princípio.

O militante reivindica os enormes avanços promovidos pelo governo e se mobiliza para defendê-los, mas não acha que o passado basta para garantir o presente e o futuro, que devem ser discutidos sempre com espírito crítico e aberto.

O militonto é superlativo e hiperbólico em relação aos líderes do governo e do partido. Sua frase estruturante: “eles sabem o que fazem…”

O militante respeita e admira os chefes históricos da esquerda, mas a vida já ensinou que também são passíveis de erros e confusões. Considera, portanto, que os instrumentos coletivos são mais qualificados que as clarividências individuais e esses só podem ser construídos pelo debate franco e desabrido de todos os temas.

O militonto é governista e acha que isso basta para resolver todos os problemas.

O militante defende o governo contra a direita, mas busca ser um revolucionário, um lutador social, para quem governar é apenas parte, ainda que imprescindível, de um processo estratégico mais amplo, o da transformação do país.

Breno Altman - Ópera Mundi

domingo, 23 de novembro de 2014

60 anos depois, cerco a Dilma lembra Getúlio.

Se a presidente Dilma Rousseff já terminou de ler o último volume da trilogia de Lira Neto sobre Getúlio Vargas, editado pela Companhia das Letras (compre aqui), deve ter bons motivos para ficar preocupada nesta entressafra entre o seu primeiro e o segundo governo.
Biografia de Getúlio Vargas, por Lira Neto.
Talvez isso explique a indecisão dela para anunciar os integrantes da nova equipe econômica, como demonstrou a dança de nomes cogitados para o Ministério da Fazenda nesta semana que chega ao fim, mantendo o suspense no ar.
Era este o livro que a presidente carregava na mão ao descer do helicóptero no Alvorada, quando retornou a Brasília, depois de alguns dias de folga numa praia da Bahia, logo após sua vitória apertada na eleição de 26 outubro.
É neste terceiro volume que o brilhante jornalista cearense Lira Neto mostra o cerco formado por forças civis, militares e midiáticas contra Getúlio Vargas, que começou antes da sua posse, e botou fogo no país, na segunda metade do seu governo constitucional (1951-1954), levando-o a se matar com um tiro no peito.
Dilma não é Getúlio, eu sei, o Brasil e o mundo não são os mesmos de 60 anos atrás, mas há muitas circunstâncias e personagens bem semelhantes nestes distintos períodos da vida nacional.
Não por acaso, o nome de Carlos Lacerda, o comandante em chefe da guerra contra Getúlio, nunca foi tão lembrado numa campanha eleitoral como nesta última.
Pintado pelos adversários como "O Corvo", com muita propriedade, Lacerda ressuscitou nos discursos e nas manifestações contra a reeleição de Dilma Rousseff, durante e após a campanha de 2014, que mobilizou os setores mais conservadores do empresariado e da imprensa, a serviço de múltiplos interesses estrangeiros, exatamente como aconteceu na tragédia de 1954.
Não por acaso, também, um dos principais focos da campanha contra o então presidente da República era a Petrobras, por ele criada sob controle estatal, após longa batalha no Congresso Nacional.
O papel que era da UDN (União Democrática Nacional) de Carlos Lacerda foi agora alegremente assumido pela aliança da oposição liderada por PSDB-DEM-PPS, que trouxe de volta, com Aécio Neves, até o mote do "mar de lama", para atacar a presidente, o PT e a Petrobras, a bordo do discurso sobre o "maior escândalo de corrupção da nossa história".
Extinta pela mesma ditadura militar-cívico-midiática de 1964, que ajudou a implantar, dez anos após a morte de Getúlio, a UDN voltou às ruas de São Paulo no último dia 15 de novembro, pedindo o impeachment de Dilma e a volta dos mesmos golpistas ao poder, empunhando as mesmas bandeiras de sempre, contra a corrupção e a inflação.
Foi neste dia comemorativo da Proclamação da República que, em Roma, no café Ponte e Parione, ao lado da Piazza Navona, terminei de ler o livro de Lira Neto e, embora tendo diante de mim algumas fas imagens mais bonitas do mundo, não conseguia deixar de pensar no que estava acontecendo no nosso Brasil naquele preciso momento. Passado e presente se confundiam na minha cabeça e confesso que fiquei deveras impressionado com tantas coincidências.
A grande diferença é que, agora, os militares estão recolhidos às suas tarefas constitucionais, e não dão o menor sinal de apoio aos Bolsonaros da vida, que reencarnaram Carlos Lacerda na avenida Paulista. Além disso, o país não está paralisado por greves orquestradas para encurralar Getúlio pela esquerda e pela direita. E, pelo menos até onde a minha vista alcança, não há tropas americanas se mobilizando para apoiar qualquer movimento contra a democracia que vigora forte em terras brasileiras.
A história costuma dar muitas voltas para voltar ao mesmo lugar, mas não precisa ter necessariamente os mesmos desfechos. Fiz algumas anotações sobre o que têm em comum estes momentos conturbados, separados por seis décadas:
* Os jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, então alguns dos protagonistas da ofensiva da mídia armada contra Getúlio, continuam os mesmos, nas mãos das mesmas famílias, a desafiar o resultado das urnas e a vontade da maioria _ simplesmente, não aceitam mais um período do PT no Palácio do Planalto, completando, ao final do mandato de Dilma, 16 anos no poder.
* A TV Tupi, primeira e única emissora de televisão brasileira nos tempos de Getúlio, que abriu câmeras e microfones para Carlos Lacerda detonar o presidente e seu governo todas as noites, ao vivo, em horário nobre, teve o mesmo destino da UDN e fechou as portas faz tempo, mas os métodos dos Diários Associados de Assis Chateaubriand sobrevivem em outros veículos do grupo, como o jornal O Estado de Minas mostrou na campanha passada. Com maior ou menor sutileza, outras emissoras de TV, a começar pela toda poderosa Globo, que dominaram o mercado após o golpe de 1964, cumprem mais ou menos o mesmo papel nos governos petistas.
* A revista semanal Veja e seus escribas alucinados reproduzem os melhores momentos da Tribuna da Imprensa, criada e comandada por Lacerda, que foi o porta-voz oficial e amalgamou as forças reunidas para a derrubada de Vargas.
* A flácida base parlamentar montada por Getúlio em tudo lembra a de Dilma, embora ambos tivessem maioria no Congresso Nacional, balançando entre contemplar direita e esquerda em seus ministérios, para se equilibrar no centro, provocando assim sucessivas crises políticas e econômicas.
* O PT de Dilma e Lula, com todas as suas contradições e divisões internas, está cada vez mais parecido com o PTB de Getúlio, com o PMDB agora no lugar do velho PSD das oligarquias regionais.
A lista do que há em comum é grande, e eu poderia passar o resto do dia aqui escrevendo sobre isso. Antes de concluir este texto, porém, é necessário registrar outra grande diferença: ao contrário de Getúlio, que tinha a Última Hora, de Samuel Wainer, a seu lado, Dilma não conta com a boa vontade de nenhum veículo da grande imprensa para mostrar e defender as conquistas do seu governo, que também existem.
Dizem que a história só se repete como farsa, mas é bom Dilma tomar cuidado. Recomendo a leitura desta bela obra do Lira Neto, não para assustar ninguém, mas para vocês entenderem melhor o que está em jogo, agora como em 1954. Foi o que aconteceu comigo.
Que Dilma e nós tenhamos melhor sorte.
Eduardo Kotosho - Balaio do Kotosho

sábado, 22 de novembro de 2014

A Sinceridade de Ricardo Semler versus a Hipocrisia de FHC.



Um artigo do empresário tucano Ricardo Semler publicado Folha (veja aqui o artigo - Nunca Se Roubou Tão Pouco) repercute intensamente nas redes sociais.

Semler recrimina a “santa hipocrisia” com que tantos comentam o caso Petrobras.

Ricardo Semler

Para ele, o que ocorrendo agora é motivo de celebração – nomear e punir empresas e executivos que há décadas corrompem, impunemente, a política nacional.

Semler refere-se com desgosto aos “envergonhados”, que fingem que os problemas da Petrobras só aconteceram depois que o PT chegou ao poder.

Ele não citou, mas ficou claro que ele falava de FHC, que afirmou sentir vergonha ao ver o que se passa na Petrobras.

Vergonha é uma pessoa dizer que sente vergonha de algo de que ela mesma se beneficiou. A este tipo de coisa, indignação simulada, você dá o nome de demagogia.

FHC, que começou tão bem na política, como um renovador de esquerda depois da ditadura, vai encerrando sua carreira como um demagogo, um hipócrita, um mistificador.

Que os petistas o detestem, é previsível: os anos trouxeram uma rivalidade destrutiva entre FHC e Lula.

Mas quando tucanos como Semler não seguram a irritação é porque algum limite foi rompido.

FHC virou uma paródia de si mesmo.

Ele parece ter perdido a noção das coisas. Poucos dias atrás, ele disse que não falava dos “amigos” quando lhe pediram uma palavra sobre a mídia.

FHC insultou, involuntariamente, a si próprio e aos “amigos”.

Um dos maiores editores de todos os tempos, se não o maior, o americano Joseph Pulitzer, dizia que a regra número 1 do jornalista é não ter amigos.

Não porque o bom jornalista deva ser misantropo, mas porque amizades interferem na maneira como você pratica o jornalismo.

O jornalista que tem amigos vai tratar de protegê-los.

Para que você tenha uma ideia da importância do mandamento de Pulitzer, foi exatamente graças aos “amigos” que FHC escapou incólume no escândalo da compra de votos no Congresso para a emenda da sua reeleição, no final da década de 1990.

A imprensa engavetou o assunto, e poupou o “amigo”.

A que preço? Publicidade governamental portentosa, financiamentos em bancos públicos a juros maternais, compras maciças de livros das empresas jornalísticas, vistas grossas para malandragens fiscais – tudo aquilo, enfim, que foi dar nas imensas fortunas pessoais dos donos da mídia.

Os “amigos” também jamais questionaram decisões nepotistas como a de entregar a estratégica Agência Nacional de Petróleo a seu genro, demitido tão logo acabou o casamento.

O papel de FHC na história foi-se apequenando miseravelmente.

Mesmo a estabilização – a todo momento citada por seguidores como sua grande contribuição ao país – é questionada em sua paternidade. Qual o papel de Itamar Franco no Plano Real? É tão insignificante quanto afirma FHC, ou houve uma usurpação de autoria aí?

A inflação, já que falamos nela, acabou quando a sociedade decidiu que já não a suportava mais. O resto foi consequência desse despertar.

O que aconteceu com a inflação parece estar prestes a ocorrer com FHC, como sugere a manifestação de Ricardo Semler.

Ninguém aguenta mais.

Paulo Nogueira - Diário Centro do Mundo

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

STF Acima das Pressões.

O Supremo Tribunal Federal retoma nesta semana o julgamento da Ação Penal 470, analisando os embargos de declaração apresentados pelas defesas dos réus, além de discutir se aceitará ou não os infringentes. O debate sobre o caso volta à tona, mas agora, na visão de alguns analistas, com um ingrediente extra: ‘a pressão das ruas’ não deixa espaço para que os ministros analisem cada recurso como manda a Constituição e o regimento interno da corte.

O clima pós-manifestações de junho deve ser respeitado, mas não pode servir de argumento simplista para cercear o papel do STF de avaliar com independência e isenção os recursos apresentados. Mais que simplista, tal argumento é um armadilha para o Estado democrático de direito. Decisões de tribunais devem ter um sentido contra-majoritário em favor dos direitos fundamentais. Um tribunal deve ser a voz do direito e não a voz das ruas.

Joaquim Barbosa. Algoz do julgamento da Ação Penal 470.
Recentemente, o professor Joaquim Falcão, da FGV, durante debate que promovia o lançamento de seu livro Mensalão - Diário de um julgamento, afirmou que os ministros devem analisar, diante da “impaciência das ruas”, se os embargos infringentes não serão usados apenas como uma estratégia da defesa para postergar o julgamento. “A pergunta (nas ruas) vai ser a seguinte: sete anos não é tempo suficiente para se chegar a uma decisão? Não terá todas as oportunidades de defesa terem sido dadas de forma suficiente?”, disse Falcão.

A resposta é não. Não tenho dúvidas de que o brasileiro que saiu às ruas em junho ou mesmo que assistiu a tudo pela televisão, mas ficou orgulhoso com o sentimento de que o ‘gigante acordou’, quer que a Justiça brasileira seja célere, mas sobretudo que seja justa. Condenar e mandar para a cadeia sob o risco de se tomar uma decisão errada não é uma solução que fará do Brasil um país melhor.

As ditaduras no século XX tiveram sempre essa característica de, nessas questões, privilegiar o resultado em detrimento do processo. O fim em desfavor do meio. Assim foram a solução final nazista em relação aos judeus e os julgamentos estanilistas dos dissidentes

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que o julgamento não acabou em dezembro exatamente porque os embargos são fases que compõem o roteiro normal de uma ação penal perante o STF. Estão previstos no regimento interno e servem para corrigir erros e também para rever o mérito quando o réu obteve ao menos quatro votos a seu favor.

Não há dúvidas que o julgamento do mensalão precisa de muitas correções. Entre os vários equívocos apontados pelos advogados de defesa, a questão do desvio do dinheiro público, um dos pilares da acusação, não se sustenta em pé. O STF concluiu que mais de 70 milhões de reais foram desviados do Banco do Brasil e da Câmara dos Deputados para abastecer o esquema. Há, no entanto, provas robustas de que os serviços de publicidade e promoção foram executados pela DNA e SMP&B tanto no contrato com o BB quanto na Câmara. Existem ordens de serviços, notas fiscais, auditorias e pareceres do próprio TCU, além dos relatórios com vídeos e fotografias que comprovam os trabalhos. Exemplos não faltam: anúncios em jornais, revistas e TVs, patrocínios a festas populares e a atletas, como o tenista Gustavo Kuerten e as jogadoras de vôlei de praia Shelda e Adriana Behar.

Na fase de dosimetria, um erro crasso sobre a data da morte do ex-presidente do PTB José Carlos Martinez deverá obrigar o plenário a rever as penas para os crimes de corrupção ativa e passiva. O ministro relator considerou que a promessa de dinheiro a Martinez ocorrera depois de novembro de 2003, quando passou a valer penas mais rígidas para tais crimes. Mas é público e notório que o ex-petebista morreu dia 4 de outubro do mesmo ano em um acidente aéreo. Portanto, qualquer acordo entre os partidos só poderia ter sido fechado ainda no período de vigência da lei anterior.

Esses são apenas dois exemplos, mas que mudam tanto a configuração do mérito do caso quanto das penas aplicadas. Precisamos aprender com o exemplo do ano passado, quando o desejo de se chegar a uma condenação exemplar supostamente garantidora da moralidade pública desequilibrou a balança da Justiça e se sobrepôs tanto à presunção de inocência e outros direitos fundamentais quanto a contraprovas que desmentem boa parte do enredo contado em plenário. Um ano depois, temos uma chance para corrigir injustiças. Que as sessões de 2013 sejam pautadas pelo equilíbrio atento aos autos do processo e à Constituição e que os ministros tenham a grandeza - que sabemos todos lá têm - para corrigir erros evidentes e a rever o mérito, quando necessário e formalmente possível. O Brasil precisa de justiça, não de justiçamento.

Pedro Estevam Serrano - Carta Capital

Alckmin, Demos e Populus.

Nos bancos acadêmicos aprendi uma velha e definitiva lição. Nas democracias, o comando é do povo.

A palavra grega demokratia, como todos sabem, é composta por ´demos´, que quer dizer povo, e kratos, a significar ‘poder’. Por isso, e na melhor conceituação, significa ‘poder do povo’, ou seja, regimes e sistemas políticos nos quais é o povo que comanda.

O problema é como atribuir poder ao povo. No velho berço de Atenas, com cerca de 30 mil habitantes, tínhamos a democracia direta. Assim mesmo, impunha-se uma odiosa exclusão às mulheres. Elas não participavam das assembleias, a tornar imperfeito, por vício de origem, o sistema.


Segundo Aristóteles, ‘demos’ eram os pobres, enquanto, para os marxistas, o povo era o proletariado.

Com o passar do tempo, consolidou-se a democracia representativa e o princípio de maioria limitada e moderada. Trocado em miúdos, a maioria tem o direito de governar mas com respeito aos direitos da minoria.

Colocado isso, soa diversionismo barato e marquetagem de quinta categoria o pronunciamento do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). O governador Alckmin disse que irá, por meio de ação judicial contra a empresa multinacional Siemens, postular indenização (dano emergente e lucro cessante) por ter essa empresa denunciado e confessado participação em licitação fraudada nas implantações de linhas do metrô paulistano. No fundo, uma maracutaia, segundo informado, consumada nos governos tucanos, desde Covas-Alckmin e a passar por José Serra, que sempre se apresenta em panos de Varão de Plutarco mas já está identificado como tartufo.

Duas colocações, no particular. O povo está legitimado, pelo seu representante na chefia do governo (Alckmin), a buscar indenização pelos prejuízos. Só que o povo (leia-se também cidadão paulista) também está legitimado a buscar a responsabilização dos seus representantes que, ainda não se sabe se dolosamente ou por incompetência, permitiram as ‘maracutaias’.

Mais ainda, ainda não se sabe nada sobre o preço da corrupção, ou melhor, se foi para engordar carteiras e bolsos ou se para fazer caixa para campanhas eleitorais tucanas. Alckmin, ao anunciar a ação judicial, quer evitar o questionamento sobre a participação de todos os governadores nesse esquema. Ele quer se auto-absolver, sem que os cidadãos paulistanos percebam.

No direito administrativo, está patente que os secretários do governador são apenas agentes da sua autoridade. Todos os secretários de Alckmin e Serra agiam, atuavam, por delegação. Se abusaram e trapacearam por conta própria, fica claro que o (s) governador (res) foi inepto nas escolhas e fiscalizações.

Como se percebe, o governo Alckmin é pródigo no exercício de uma ética ambígua, que, certamente, seria reprovada pelo santo Josemaria Escrivá de Balaguer. E não se trata, como se informou ter acontecido no passado, de acordos com o chefão do Primeiro Comando da Capital (PCC). Refiro-me, agora, às declarações de que o governo Alckmin não vai rescindir os contratos com a Siemens e referentes a outras obras. Com efeito, a Siemens foi ‘bandida’ apenas em certa e determinada obra. Para as demais, não é bandida.

Num pano rápido, está patente a ética ambígua de Alckmin pois a Siemens, depois de admitir participação criminosa e os seus responsáveis livraram-se em face do instituto da delação premiada, continuará, por contratos cujo princípio básico é a confiança recíproca, a participar das realizações do governo Alckmin.

Wálter Maierovitch - Carta Capital

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Fidel Castro faz 87 anos afastado dos holofotes.

Afastado das tarefas do governo e dos microfones desde 2006, Fidel Castro completa 87 anos nesta terça-feira 13 dedicando-se a testar cultivos para melhorar a alimentação dos cubanos, navegar na internet e, eventualmente, a receber líderes estrangeiros.

Para a ocasião foram programados um show em um parque de Havana e o lançamento de dois livros, mas não haverá atos oficiais para o ícone da esquerda latino-americana e inimigo histórico dos Estados Unidos, que nasceu no dia 13 de agosto de 1926 em Birán, no leste de Cuba.

Uma das imagens recentes de Fidel Castro, em 2012.
"Vivi para lutar", escreveu Castro em uma carta aos oito presidentes que compareceram no dia 26 de julho ao evento pelo 60º aniversário do ataque ao Quartel Moncada, no qual ele foi o grande ausente. "Devo respeitar a óbvia resistência dos guardiões da saúde", se desculpou.

O estado de saúde do "comandante em chefe", como é chamado pelos cubanos, é guardado como um segredo de Estado desde que ficou doente e cedeu o comando do país ao irmão Raúl, cinco anos mais novo, no dia 31 de julho de 2006.

Cada vez a imprensa publica menos fotos suas e em uma de suas últimas aparições públicas - ao votar em uma escola do bairro de El Vedado no dia 3 de fevereiro - aparecia muito encurvado e apoiado em uma bengala. Neste dia foi reeleito como um dos 612 deputados cubanos - entre 612 candidatos - embora não compareça às sessões do Parlamento.

Em seus anos como presidente comemorava seu aniversário com crianças, que cantavam e comiam bolo ao seu lado, no Palácio dos Pioneiros de Havana.

Um "soldado das ideias" na internet

Discreto sobre sua vida particular desde que chegou ao poder, em 1959, pouco se sabe sobre o afastamento de Castro. Sua biógrafa e editora de livros, a jornalista Katuiska Blanco, revelou que dedica parte de seu tempo a navegar na internet, mas que continua escrevendo a mão.

"Apesar de já não apertar as teclas (de uma máquina de escrever ou computador), navega pela internet em busca de perfis de personalidades, mapas, monografias, dados, anedotas, contos", contou Blanco à AFP.

Castro é pai de oito filhos e avô de vários netos. Com Dalia Soto del Valle, sua esposa há cinco décadas, teve Alejandro, Antonio, Alex, Alexis e Ángel.

De seu primeiro casamento, com Mirta Díaz-Balart, nasceu seu primogênito, Fidelito, e tem outros filhos de outros relacionamentos: Alina Fernández (que viajou há alguns anos aos Estados Unidos) e Jorge Ángel.

Fidel Castro "continua sendo brilhante, sempre promotor de ideias", disse o presidente uruguaio, José Mujica, que o visitou há três semanas. "Encontrei-me com um Fidel carregado em anos, mas sempre mentalmente ativo, com um homem perfeitamente ciente do que acontece no mundo, informado e interessado por todos os temas, como sempre".

Orador maratônico, onipresente na vida dos cubanos durante cinco décadas, Castro deixou de publicar há um ano suas "reflexões" na imprensa, tarefa que, como "soldado das ideias", cumpriu com certa regularidade depois de deixar o poder.

Silêncio sobre as reformas econômicas

Mujica relatou que Castro "está motivado em impulsionar uma experimentação em biologia, para encontrar vegetais da área tropical que sirvam na fabricação de ração, para a comida dos animais, para que sobrem mais grãos disponíveis para que as pessoas comam".

Castro - que já não veste seu tradicional uniforme verde oliva, mas roupas esportivas - também falou sobre seus ensaios com a moringa (uma árvore tropical com sementes oleaginosas originária da Ásia), que espera que ajude a melhorar a alimentação humana e animal na ilha.

Respeitado ou criticado pelos cubanos, Fidel guardou silêncio sobre as reformas realizadas por Raúl na quebrada economia cubana, planejada ao estilo soviético e instaurada por ele.

Para os economistas José Antonio Alonso (espanhol) e Pavel Vidal (cubano), "o silêncio confirmatório de Fidel Castro constitui uma fonte de legitimidade" para as reformas de Raúl, embora estas caminhem na direção contrária.

Raúl, que carece do carisma de Fidel, continua chamando-o publicamente de "meu chefe", embora tenha agora as rédeas do governo e do Partido Comunista (único).

"Mensalão" Versus "Trensalão": Quem Perde Mais?

A mãe de todas as batalhas está marcada para esta quarta-feira, quando o chamado mensalão petista promete se encontrar com o trensalão tucano. Neste dia 14, o Supremo Tribunal Federal retoma o julgamento da Ação Penal 470 e setores alinhados com o PSDB já pressionam os ministros da corte para que os chamados embargos infringentes não sejam aceitos – o objetivo é tentar acelerar as prisões de réus ligados ao PT, como José Dirceu, José Genoíno e João Paulo Cunha.

"Mensalão" do PT.
Longe do Planalto Central, em São Paulo, o PT já se movimenta para engrossar o protesto convocado pelo Movimento Passe Livre contra o chamado “trensalão” ou propinoduto tucano, que teria superfaturado milhões nas obras do metrô de São Paulo. Para os jovens do MPL (Movimento Passe Livre), sem os desvios que eles estimam em mais de R$ 400 milhões, as tarifas do transporte público na capital paulista custariam apenas R$ 0,90.

Enquanto tucanos e petistas atiram pedras uns contra os outros, num campeonato que só traz prejuízos aos dois lados, quem corre por fora é a ex-senadora Marina Silva. O que a nova pesquisa Datafolha, divulgada no último domingo, revela é que apenas ela cresceu de forma consistente, significativa e ininterrupta desde o início dos protestos.

"Propinoduto Tucano" ou "Trensalão" do PSDB.
Marina parece ser a candidata dos “sem partido”, mas esse, curiosamente, pode acabar sendo seu grande problema. Ainda faltam pelo menos 300 mil assinaturas, validadas em cartórios, para que ela consiga criar sua Rede Sustentabilidade. Ou seja: ela própria corre o risco de se transformar numa sem partido e ficar fora de um jogo que, até agora, a beneficia.

Leonardo Attuch - Brasil 247

Lei Maria da Penha faz sete anos e o trabalho só começou.

Há algumas semanas eu participei de um debate sobre feminismo para não feministas. Um dos momentos mais difíceis para mim foi quando um dos homens da plateia alegou que a Lei Maria da Penha tinha sido impulsionada pela existência de um personagem agressor da novela das oito.

Maria da Penha. Prova viva dos danos da violência doméstica.
Fiquei indignada. Verdadeiramente indignada. Era como se ele estivesse tentando apagar a história de vida de uma mulher fortíssima, exemplo para todas nós, e que batalhou por nossa integridade física, psicológica, sexual. Na cabeça daquele rapaz, era mais razoável "colocar na conta" de um personagem ficcional, homem, a existência de uma lei que mudou a vida de incontáveis mulheres, do que deixar os louros a quem de direito: Maria da Penha, mulher, cearense, lutadora.

Hoje, 7 de agosto, é aniversário de sete anos da lei batizada com o nome desta mulher incrível. Maria da Penha foi brutalmente violada por seu ex-companheiro, ficando paraplégica em razão da agressão. No ordenamento jurídico brasileiro, leis não retroagem para dar punição mais pesada ao criminoso; mesmo assim, Maria da Penha se engajou na criação da Lei 11.340/2006.

Seu trabalho não foi em vão, longe disso. Segundo pesquisa do Instituto Patrícia Galvão divulgada essa semana, 98% das pessoas conhecem a lei. O número é excelente, mas há dois anos outra pesquisa, do Instituto Avon/Ipsos, indicava que só 13% dos entrevistados conheciam bem a lei.

Um dos argumentos mais absurdos sobre a Lei Maria da Penha é que ela cria uma diferença entre homens e mulheres, como se tal diferença já não existisse no mundo real. Ou você imagina que um homem responderia "em casa" à pergunta "onde você se sente mais inseguro?". Pois essa foi a resposta de metade dos entrevistados da pesquisa Percepção da sociedade sobre violência e assassinato de mulheres.

Em casa.

A mulher literalmente vive ao lado do seu agressor. "Por que ela não vai embora?", "por que ela não denuncia?", "por que ela continua ao lado do cara?", perguntam. Como costumamos dizer em círculos feministas, não existe "mulher que gosta de apanhar", o que existe é mulher humilhada demais para denunciar, agredida demais para reagir, amedrontada a ponto de temer por sua vida, empobrecida no nível de depender do agressor para sobreviver e alimentar os próprios filhos.

A Lei Maria da Penha não resolve o problema de violência doméstica, mas dá meios para a mulher conseguir seguir a vida longe do agressor. Não existe fórmula mágica para apagar milênios de opressão e violência. Há muito trabalho a ser feito, e é absurdo que somente há sete anos exista uma lei para salvaguardar a integridade das mulheres dentro de casa, nas suas relações de afeto e dependência.

Mas ainda bem que ela existe.

sábado, 3 de agosto de 2013

Para a esquerda, Brics são caminho para contrapor os EUA.

A relação intercontinental do Brasil com a Rússia, Índia, China e África do Sul no âmbito dos Brics é vista pela esquerda latino-americana como uma forma de disputar espaço com a hegemonia dos Estados Unidos no cenário mundial. Tal avaliação ficou clara durante o seminário “Brics e a América Latina”, realizado na quarta-feira 31, no primeiro dia da 19ª reunião do Foro de São Paulo, encontro de representantes de partidos políticos e de organizações não governamentais de esquerda da América Latina e Caribe, realizado em São Paulo.

Para Guilherme Patriota, irmão do chanceler Antonio Patriota e integrante da assessoria especial da Presidência da República, os Brics dão ao Brasil mais autonomia e poder de decisão no jogo político-econômico global. Patriota afirma que o grupo não busca confronto com ninguém, mas deseja uma reforma da ordem ‘global hierarquizada’ para criar uma situação de mais igualdade entre os países. “Em um momento de tamanhas incertezas, é importante um país como o Brasil se relacionar com todo mundo. Não podemos passar o resto da vida numa auto-limitação no relacionamento com o exterior”, afirmou Patriota,

O diplomata aponta que com esse agrupamento, o Brasil inicia um diálogo autônomo com países importantes em suas respectivas regiões e também em órgãos deliberativos internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU, onde a Rússia e a China têm assentos permanentes. “É importante ressaltar que para nós os BRICS não são uma proposta de formação de uma aliança militar, mas sim um mecanismo de coordenação muito importante para o fortalecimento da nossa diplomacia em negociações com países de maior ou menor afinidade. Os Brics são a afirmação do Brasil como nação”.

Cunhada em 2001 pelo chefe de pesquisa em economia global do grupo financeiro Goldman Sach’s, Jim O’Neill, a sigla Brics agrupou as maiores economias em desenvolvimento no mundo, a despeito de não serem um bloco econômico ou uma associação comercial formal. Somadas, as cinco economias representam mais de 21% do PIB mundial, 42% da população mundial e 45% da força de trabalho.

Mesmo com as baixas projeções relativas de crescimento individual para os próximos anos, sobretudo na China onde o “pouso suave” do produto interno bruto no último trimestre levantou preocupações, o grupo ainda desponta como tendo indivíduos com grande poder de consumo o que promove o investimento de grupos financeiros internacionais.

Para Ronaldo Carmona, membro da Comissão Internacional do PCdoB, o Brasil vive uma “guerra de posições”, na busca de alianças e movimentos que tornem o sistema internacional mais favorável ao projeto de desenvolvimento nacional. “Os Brics são uma aliança contra-hegemônica, porque esses países contestam o status quo”, afirmou durante o seminário.

Carmona destacou que há um problema evidente nessa busca de ascensão compartilhada: as fortes disparidades entre a economia brasileira e a de seus vizinhos no continente. “Para o Brasil, esse impulso de tornar o movimento internacional mais favorável passa pela dificuldade em criar condições a uma união sul-americana e na consequente inserção da América Latina, enquanto região, no mundo”, afirma. “A expectativa brasileira em relação à sua ascensão no cenário político-econômico mundial deve ser compartilhada, porque o contrário seria desastroso para o país.”

Resposta ao sistema

No dia 27 de março deste ano, durante a 5ª reunião de cúpula dos Brics, foi anunciada a criação do “Banco dos Brics”, que teria, na sua atribuição principal, incrementar o comércio entre os cinco países, inclusive trabalhando a criação de moedas especiais. A preocupação do grupo de se proteger da crise de outros países fez com que eles pensassem em criar um fundo de emergência de 100 bilhões de dólares para socorro mútuo. A expectativa é que durante a próxima reunião de cúpula, em Fortaleza, em 2014, o estatuto do banco possa ser oficializado.

5º Encontro dos BRICS. Durban, África do Sul. 2013.
“O Banco dos Brics tem um potencial extraordinário de desenvolvimento sobretudo dos países do Sul”, afirma Ronaldo Carmona. O membro do PCdoB aponta ainda que um desenlace do atual modelo financeiro encontra resistência dos países centrais, já que nenhuma potência aceita ceder o seu poder de maneira pacífica. “É por isso que a aliança dos Brics é frequentemente desqualificada. Mas o grupo tem revelado mais identidade do que diferenças em torno de um conjunto de pautas internacionais, o que fortalece sua ação.”

Essa intransigência das políticas monetárias dos países desenvolvidos foi tema da fala da senadora e líder sindical Dolores Padierna Luna, considerada uma das mulheres de maior destaque da vida pública mexicana, tendo fundado o Partido da Revolução Democrática em 1989. “Os Estados Unidos têm um plano para cada país. No caso dos Brics, conter o avanço da China, porque o país é uma potência exportadora com alta reserva de dólares, e o Brasil, que por muitos anos foi o principal sócio dos americanos. Mas Lula, quando assumiu o poder, adotou uma outra política, e construiu junto com a Venezuela, Cuba e Argentina uma região autônoma e com integração”, disse.

Conservar seu crescimento, para prescindir do dólar. Ampliar a integração, cooperação e financiamento na América Latina. Ser um bloco estruturado, com sua própria dinâmica que impacte positivamente toda a região. Essas são as medidas propostas por Dolores para substituir a influência dos EUA no subcontinente.

“Os Brics representam um novo paradigma da política mundial, eles estão à frente da reorganização do sistema mundial dos estados, e seu papel é definitivo. Há uma condição favorável para o surgimento de novos atores globais, novos polos de desenvolvimento. O jogo político está aberto”, define a senadora.

Também presentes na discussão, os representantes do Partido Comunista Chinês e do Partido Comunista Russo, Pan Mingtao e Leonid Kalashnikov, insistiram na cooperação entre os países para criar uma relação favorável e virtuosa, e na confiança do caminho do desenvolvimento compartilhado. "Os Brics devem, sobretudo, ajudar a harmonizar as relações internacionais", disse Kalashnikov.

Os debates da 19ª edição do Foro de São Paulo continuam até o próximo domingo, 4 de agosto. Na sexta-feira 2, o ex-presidente Lula irá participar da abertura oficial do evento, em atividade na quadra do Sindicato dos Bancários, no centro da cidade, às 19h. Também são esperadas as presenças dos presidentes Nicolás Maduro, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia, que deve participar da cerimônia de encerramento.

"A esquerda tem obrigação de garantir as conquistas sociais da última década". Afirma Lula.

Durante a cerimônia de abertura oficial da 19ª edição do Foro de São Paulo, nesta sexta-feira 2, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a esquerda tem a obrigação de garantir que nenhum retrocesso ocorra nas conquistas sociais da última década, e que é preciso parar de reclamar dos ataques da direita através da mídia conservadora.


O evento aconteceu na quadra do Sindicato dos Bancários, no centro da cidade de São Paulo, e contou com a presença de lideranças regionais, estaduais e nacionais de esquerda, líderes das centrais sindicais CTB e Central Única dos Trabalhadores (CUT) e representantes de partidos e organizações de esquerda de toda a América Latina e Caribe.

No início do seu discurso, o ex-presidente disse que seria breve, porque o departamento de estado americano estava vigiando e ele tinha que tomar cuidado com o que falva. “Brincadeiras à parte, a direita não tem aceitado que forças progressistas assumissem a presidência dos governos da América Latina. E eu quero creditar parte da chegada das forças de esquerda ao poder ao Foro de São Paulo. Por isso, temos obrigação de não garantir retrocessos nas conquistas obtidas até agora", disse.

Lula afirmou que é preciso reorganizar o Foro de São Paulo para "continuar evoluindo". O petista disse acreditar na internet como a melhor plataforma para as esquerdas difundirem seus conceitos e ideologias a milhões de pessoas. "É preciso dar mais organicidade ao Foro, divulgar melhor nossas ideias e aprimorar as formas de comunicação entre nós", explicou. "Precisamos discutir isso a sério, arrumar esse dinheiro e fazer as coisas acontecerem."

Lula destacou ainda que os partidos políticos de esquerda não podem mais agir da maneira antiga de se fazer política, e as recentes manifestações que chacoalharam o País pegaram todos os partidos e todo os movimentos sociais de surpresa, "porque o sistema atual é falho". “Não temos passado uma mensagem de esperança para a nossa juventude”.

O foro foi constituído em 1990 quando Lula e Fidel Castro, ex-presidente de Cuba, convidaram outros partidos e movimentos sociais e revolucionários da América Latina e do Caribe para discutir alternativas às políticas neoliberais dominantes no continente durante aquele período. 23 anos depois da primeira reunião no Hotel Danúbio, em São Paulo, Lula reconhece a evolução da discussão política da esquerda latino-americana a partir do foro, mas aponta a necessidade de avançar “cinquenta ou cem vezes mais” na integração econômica e social dos países da região, tendo o Brasil como a nação ‘ponta de lança’ nesse processo.

“Os nossos dirigentes partidários precisam saber que precisamos trocar mais informações e experiências, e os nossos governantes precisam entender que é preciso dividir seu tempo entre cuidar da política externa de cada país e cuida da política de integração. Isso não se faz por telefone”, disse o ex-presidente.

Para o petista, a América Latina pode ser o grande farol para a nova esquerda que precisa ser construída no mundo. “O PT, junto com os demais partidos de esquerda do Brasil, precisam entender que o Brasil tem a maior responsabilidade no processo de integração regional, pelo fato de sermos o maior país, e termos a maior economia. Se não assumirmos essa responsabilidade, tudo será mais complicado”, concluiu.

Dilma: “Foro é extraordinário laboratório político”

Em mensagem de apoio gravada e transmitida durante a abertura da cerimônia, a presidenta Dilma Rousseff classificou o Foro de São Paulo como sendo um “extraordinário laboratório político”, onde os partidos progressistas da América Latina e do Caribe formularam projetos e alternativas que estão mudando a realidade no continente.

“No centro desses projetos, está a redução da histórica e ultrajante desigualdade, que por séculos corroeram nossas sociedades. Todos os condutores das grandes transformações no nosso continente chegaram ao poder por meio de eleições absolutamente livres, democráticas e com ampla participação popular. Mas nós não nos conformamos com os avanços conquistados. Temos grandes desafios pela frente, resultantes das próprias transformações que realizamos. Nós temos disposição de associar o futuro do Brasil ao da América Latina e do Caribe", afirmou a presidenta.

Também presente no evento, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, diisse que a "revolução bolivariana continuará por muito tempo", a despeito da morte do ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez. "A direita sem escrúpulos está permanentemente atrás de oportunidades, para retomar o passado, como bem demonstraram os golpes em Honduras e no Paraguai. E aqui no Brasil, apesar dos ataques diários da mídia conservadora, que funciona como um partido de oposição, não recuaremos da nossa tarefa histórica de mudar o país. Colocamos na agenda política a discussão de uma série de reformas, principalmente o funcionamento do nosso sistema político, no sentido de democratizá-lo."

As atividades do Foro de São Paulo se estendem até domingo, 4, quando ocorrerá uma cerimônia de encerramento com a presença do presidente da Bolívia, Evo Morales.

Ricardo Rossetto - Carta Capital